Flexibilidade Cognitiva, Pensamentos Automáticos e Crenças

“a flexibilidade cognitiva é uma função cognitiva superior que permite ao indivíduo: reinterpretar situações; reestruturar o conhecimento e em função disso adaptar ou desenvolver respostas funcionais.” (Guerra, 2010)

Por Carla Mendes

* Este documento é uma compilação de diferentes artigos referentes aos conceitos supra mencionados.

De acordo com Spiro e colaboradores (1998) a teoria da flexibilidade cognitiva consiste numa capacidade que permite ao indivíduo, perante uma nova situação, reestruturar o conhecimento a fim de a solucionar.

Segundo Guerra (2010) “a flexibilidade cognitiva é uma função cognitiva superior que permite ao indivíduo: reinterpretar situações; reestruturar o conhecimento e em função disso adaptar ou desenvolver respostas funcionais. Esta envolve três princípios fundamentais: (i) é uma competência que implica um processo de aprendizagem; (ii) envolve a adaptação do conhecimento às transformações ambientais; (iii) essa adaptação será feita para novas situações que saiam da rotina habitual do indivíduo.

Um indivíduo com flexibilidade cognitiva está mais capacitado para se adaptar às mudanças ambientais porque (a) despista alterações ambientais; (b) percebe a ineficácia das respostas usuais; (c) reestrutura o conhecimento; (d) selecciona novas estratégias e novos comportamentos.”

Knapp (2004) afirma que “todos os dias ocorrem milhares de pensamentos, a maioria deles são rápidos, involuntários e automáticos, por isso, não percebemos conscientemente. São os chamados pensamentos automáticos que são exagerados, distorcidos, equivocados ou disfuncionais e interferem nas emoções e no comportamento, assim, a mudança nos pensamentos automáticos faz o humor do paciente melhorar, assim como quando a crença é modificada promove uma melhoria do transtorno.”

Os pensamentos automáticos podem ocorrer através de eventos externos ou internos, mas são fáceis de identificar e modificar; porém, eles podem ocorrer sob forma de imagens mentais.

Segundo Beck (1997) os pensamentos automáticos são cognições que aparecem involuntariamente numa deteminada situação e não estão sujeitos à análise racional e estão relacionados com erros cognitivos. As distorções cognitivas resultam em comportamentos desajustados e que causam sofrimento psíquico.

Knapp (2004) classificou os pensamentos segundo três tipos:

  • Distorcidos quando acontecem mesmo diante de evidências contra;
  • Acurados, mas com a conclusão distorcida;
  • Acurados, mas completamente mal adaptativos.

 

Ainda segundo Knapp (2004) os pensamentos automáticos têm as seguintes características:

  • Ocorrem junto com outros pensamentos;
  • Não são fruto de reflexão ou vontade;
  • Não são submetidos à avaliação crítica;
  • Passam despercebidos se não forem monitorizados;
  • São associados com emoções específicas relacionadas ao conteúdo do pensamento;
  • São rápidos e breves e podem ser verbais ou imagéticos,
  • Porém é possível identificá-los e avaliá-los quanto à validade e utilidade.

O paradigma da reestruturação cognitiva de Beck e Ellis defende que o aparecimento dos pensamentos automáticos surgem devido a determinada crença central e intermediária do sujeito  que poderão dar origem a erros de processamento cognitivos que perante uma situação se desencadeia o pensamento automático, seguindo-se reações a nível emocional, fisiológico e comportamental.

Desde a infância as pessoas desenvolvem crenças sobre si mesmas, outras pessoas e o mundo. As crenças centrais são entendimentos e ideias consideradas verdades absolutas, sendo que a interpretação de um evento será em conformidade com a crença ativada. As crenças centrais são globais, rígidas e supergeneralizadas e influenciam uma classe intermediária de crenças que são as atitudes, regras e suposições (Beck, 1997).

Crenças nucleares são as ideias mais enraizadas sobre si mesmo, as pessoas e o mundo, e independente da situação a pessoa vai reagir de acordo com as crenças. Estas fortalecem-se durante a vida e molda o jeito de ser de modo que se as crenças disfuncionais não forem corrigidas se cristalizam e se tornam absolutas e imutáveis para o sujeito. Mudar estas crenças modifica os estados psicopatológicos, e tal mudança se constitui como um dos objetivos da terapia cognitiva (Knapp, 2004).

Beck (1997) defende que nos transtornos emocionais estas crenças são ativadas e tornam o processamento da informação tendencioso, no sentido que o sujeito extrai da realidade aquelas informações que confirmam a crença disfuncional e negligenciam as evidências contrárias.

No entanto, devido à nossa plasticidade cerebral é possível restaurar a flexibilidade cognitiva com muito treino de reestruturação, e isso consegue-se graças à  Psicologia.

 Fontes de pesquisa:

– Beck, J. S. (1997). Terapia cognitiva: teoria e prática (S. Costa, Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas.

– Guerra, C., Rodrigues, F., & Curião, G. (2010). Flexibilidade Cognitiva e Inteligência Emocional. Contributos para o estudo da sua interação em profissionais de Saúde. In P. Brito, J. R. Nunes, J. E. Alves & R. Cordeiro (Orgs). Comunicações apresentadas no II Seminário de I&DT. Consolidar o conhecimento, perspetivar o futuro: Portalegre.Instituto Politécnico de Portalegre.

– Knapp, P. (2004). Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Artmed Editora.

– Spiro, R. Coulson, P. e Feltovich, D. (1998). Cognitive flexibility theory: Advanced knowledge acquisition in ill- structured domains. Educational Technology. 31 (5), 24-33.

 

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